segunda-feira, 4 de janeiro de 2010

A QUINTA DOS INGLESES

A

censura foi, sempre, uma fortíssima condicionante da nossa cultura. Pegue-se na história e rapidamente se constata que, desde muito cedo, fomos sujeitos a leis que limitavam a liberdade de expressão. A crer nos historiadores, a mordaça chegou a Portugal pelas mãos da Igreja Católica – pontificava então Gregório XI – que, a pedido do rei D. Fernando, instituiu a censura episcopal.

F

oi a alavanca porque esperava o Poder Civil que, logo a seguir, passou a regulamentar as opiniões, sobretudo quando escritas. E a coisa durou até há pouco, até ao final do regime a que chamámos Estado Novo e que tinha na Censura um dos seus principais esteios, institucionalizando um estrito controlo dos meios de comunicação. Mas não só já que exercia uma abominável pressão sobre a opinião e pensamento de qualquer um de nós. Censura prévia das publicações, apreensão sistemática de muitas delas, detenções e prisões de quem ousava dar voz ao pensamento, enfim, enormidades muitas das vezes “legitimadas” por tribunais que, de resto e na sua maioria, funcionavam como um dos braços da repressão dessa canalha.

A

té que veio o 25 de Abril e com ele a explosão das vozes há tanto tempo caladas (pelo menos desde D. Fernando). Há quem diga que houve exageros. Opiniões. Uma voz livre, por muito disparatada que seja, é sempre melhor que ver um homem amordaçado. E legislou-se nesse sentido.



Tout est bien qui finit bien”, pensávamos, olhando para trás (sem nostalgia). É o eras. Não foi preciso muito para ver que mais forte que a Lei escrita e aceite era, por exemplo, a tutoria dos Ingleses que desde há séculos nos mantêm como trabalhadores desta sua quinta. Há tempos vieram cá alguns desses patrões, alegadamente de férias. Dois deles, um casal, trouxe três filhos e, num dia de copos – ou seja, um dia comum para eles – desses três filhos sobraram apenas dois. O outro, uma menina, desapareceu enquanto os pais e amigos festejavam, quiçá uma ida ao supermercado (ou outro motivo fútil que eles tanto gostam de solenizar) com mais de uma dezena de garrafas de vinho, uns brandys e outras coisas que entontecem. Nunca é demais relembrar que enquanto isto, as crianças sozinhas num quarto, longe da vigilância de quem tinha a obrigação de delas cuidar. Mas isso se calhar é só para nós, parolos que povoam esta quinta de ingleses!

B

om, adiante que se faz tarde: a menina desapareceu, os pais, quando se aperceberam (?) chamaram imediatamente as televisões (do seu país) e só depois a polícia. Anos (e muitas complicações depois) continuamos sem saber o que sucedeu à pobre menina. Devo salientar que durante a investigação os ingleses (em cujo país desaparecem mensalmente dezenas de crianças e nem todas reaparecem) viram-se, a determinada altura, em perigo de, pelo menos, serem acusados de negligência grosseiríssima. E para obstar a tal (e às tantas a muito pior) mandaram para cá polícias deles, atitude que mereceu o acordo do nosso feitor (já sabem o nome). O problema é que as policias deles que cá vieram meter o bedelho chegaram à mesma conclusão dos nossos especialistas nessas coisas. E como não podia ser – até porque os pais da menina são amigos do “premier” de Sua Majestade – tratou-se de mandá-los regressar à base enquanto aqui se despedia o parolo que coordenava a investigação. Depois fez-se mais umas diligências e outras ninharias (para inglês e português verem) até que se arquivou o processo.



Mais mal é de quem foi”, diz-se por cá. E por isso aceite-se a fatalidade, esqueça-se o assunto e voltem todos aos copos.

E

ra assim que suas excelências, os nossos patrões, queriam, pelo que teríamos de cumprir.

M

as o policia português obrigado a abandonar a busca por ordem – ao que me parece, directamente emanada do nº 10 de Downing Street – não quis aceitar a (falta de) resolução para o caso. E porque sendo policia estava proibido de falar sobre a investigação, decidiu abandonar a profissão para o poder fazer. E foi assim que, já homem livre, Gonçalo Amaral escrevinhou o testemunho do que foi apurado em milhares de diligências, muitas delas feitas fora das fronteiras da quinta que habitámos.

E

m forma de livro, o testemunho do que estava no inquérito – e apenas isso, sem opiniões - vendeu-se aos milhares. Porque a imensa maioria destes parolos que somos não consegue dormir em paz sem saber o que aconteceu à pobre menina. Mas quem não gostou da “veleidade” foram os pais dela. E, para provar que continuam a cá mandar, pediram a um tribunal português que amordaçasse Gonçalo Amaral. E já que estava com a mão na massa, que fizesse como se fazia em tempos de má memória: que fossem apreendidos os livros que ainda sobravam.

O

tribunal acedeu. E assim ficámos a saber que essa coisa da liberdade de expressão ou direito de opinião, plasmados na nossa Constituição como direitos fundamentais, deixam de o ser, sobressaindo como muito mais fundamentais os interesses de dois súbditos da rainha Isabel II.

P

odemos barafustar mas nem sei se vale a pena já que aqueles que elegemos para legislar e garantir a nossa liberdade, ao tomar conhecimento da estranhíssima e inaceitável decisão do tribunal lisboeta, decidiram que o melhor era meter a viola ao saco...

E

quem cala, consente!


E

sta decisão teve pelo menos um mérito: deixou claro que continuámos a ser a quinta dos ingleses.

Autor: ÓSCAR QUEIRÓS

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