segunda-feira, 30 de março de 2009

O "CASTELO" DE LEÇA


“Castelo” de Nossa Senhora das Neves – um exemplo, com as suas originalidades, da defesa da linha costeira do Norte de Portugal

1. Introdução

Largo do Castelo. Rampa do Castelo. Viela do Castelo. A toponímia local consagra o forte de Nossa Senhora das Neves, em Leça da Palmeira, como estrutura castelar. Quando os locais falam nele, falam sempre no “Castelo de Leça”, embora em rigor se esteja apenas perante um dos fortes edificados no século XVII com o objectivo de defender a costa portuguesa dos ataques de piratas vindos do Mediterrâneo ou da costa africana, de corsários provenientes da Biscaia e de outras paragens do resto da Europa ou da permanente ameaça castelhana.
O forte de Nossa Senhora das Neves é a grande marca do centro histórico da freguesia matosinhense de Leça da Palmeira e assistiu às transformações urbanas geradas à sua volta, muito embora ainda se mantenha, por ali, um cheirinho de uma Leça da Palmeira antiga. Não visível apenas na patine das muralhas da fortaleza, mas também em algumas habitações e nas estreitas ruelas que dali partem ou ali chegam. Bares como o “Costa do Castelo” e restaurantes com os sugestivos nomes de “Arquinho do Castelo”, “Degrau do Castelo” ou “A Flor do Castelo” apenas ajudam a confirmar que à volta da fortaleza se criou toda uma iconografia e se formatou uma memória colectiva.
O trabalho feito por Mário Barroca é, sem dúvida, o mais completo alguma vez elaborado sobre o Forte de Nossa Senhora das Neves e deixa pouquíssima margem para um desafio minimanente à sua altura. Não é este o objectivo deste trabalho, que obviamente se suporta, também, nas páginas dedicadas a esta fortaleza no livro “As Fortificações do Litoral Portuense”, e se mais não acontecer que pelo menos este esforço sirva para o seu autor ficar a perceber melhor “o castelo” junto ao qual brincou nos seus primeiros dez anos e junto ao qual perdeu dias interrogando-se, olhando para a bacia do Porto de Leixões, sobre o porquê de barcos de grande tonelagem flutuarem suavemente sobre as águas oleosas com a facilidade de uma gaivota cansada de bicar taínhas.
Como refere Mário Barroca, o ataque corsário ao Funchal em 1566 deu origem a toda uma política nacional de construção de fortes junto ao litoral, com ignição antes do período da Restauração, ainda durante a fase filipina. Bertrand de Montluc, o francês que comandou a tropa fandanga que assaltou o Funchal, foi, por isso, responsável não apenas por uma onda de destruição mas também se associou, indirectamente, a um movimento de construção. O aviso que deixou ao arrasar o Funchal (onde, em 1528, um navio biscaino roubou dois navios ancorados no respectivo porto) à frente de uma armada de onze galeões e comandando 1300 homens foi suficientemente...forte. Nenhuma outra cidade ou vila portuguesa do litoral quis, a partir desse momento, sequer sonhar com a possibilidade de viver 16 dias de terror, na lembrança também de que a investida corsária na Madeira lhe destruiu as reservas de açúcar e culminou com a morte de três centenas de pessoas, deixando no seu rasto famílias arruinadas. Contas feitas ao saque, terá rendido um milhão de cruzados.
A unir o episódio madeirense e o forte de Nossa Senhora das Neves há ainda um nome de uma figura grada da História de Portugal – João Gonçalves Zarco, um dos descobridores da Madeira, provavelmente natural de Leça da Palmeira (ou Tomar). Que hoje empresta o seu nome a uma das escolas secundárias de Matosinhos, a uma rua de Leça da Palmeira rasgada pela Via Rápida e a uma avenida de Matosinhos que rasga a malha citadina sob o eixo terra-mar. Pelo menos.
Esta rede de pequenos fortes marítimos, construída durante o período da Restauração tendo como “leit motiv” a ameaça espanhola, estendeu-se da foz do Douro à foz do Minho, sendo conhecidas fortificações deste tipo em Caminha, Vila Nova de Cerveira, Valença, Monção – relativas a um primeiro movimento construtivo – e também em Lovelhe, Ínsua, Vila do Conde e Póvoa de Varzim. No foz do Lima, por exemplo, ergeu-se a chamada Torre da Roqueta, de que nos dá nota Carlos Alberto Ferreira de Almeida (em “Alto Minho”, 1987), uma estrutura que defendia a foz desse rio, mandada construir no reinado de D. Sebastião e melhorada por Filipe I, que a transformou em fortaleza. Num período posterior, recebeu transformações abaluartadas (1652) e revelins (1700). É um caso que tem com o forte de Nossa Senhora das Neves apenas pontos de contactos, mas que dele diverge claramente como estrutura progressivamente evoluída, enquanto o forte de Leça da Palmeira foi de raiz aquilo que ainda é hoje em termos arquitectónicos e de capacidade militar.


2. Porquê Nossa Senhora das Neves?

Raros são os leceiros que conhecem o seu castelo pelo seu nome de sempre: Nossa Senhora das Neves. No entanto, quase todos os portuenses sabem que o “castelo” que remata junto ao mar a longuíssima Avenida da Boavista é “do Queijo”, embora também poucos se lembrem que antes do queijo está o nome de Francisco Xavier. Perdoa-se o esquecimento tendo em conta o apelido desta fortaleza...
Tal como outras fortalezas, também esta foi baptizada com um nome santo. Nunca fiando totalmente no poder defensivo dos silhares de granito e no poder de fogo das bombardas, a associação de um nome divino pelo menos dava algum conforto espiritual e, quiçá, “reforçava” as muralhas e aumentava a capacidade destrutiva das armas pirobalísticas...
Não encontrámos qualquer registo que explique a escolha da Senhora das Neves para madrinha do forte construído na foz do Rio Leça. Há, porém, uma referência muito interessante na monografia monumental de Matosinhos de Guilherme Felgueiras – editada em Maio de 1958, sob o patrocínio de Fernando Aroso, o então presidente da Câmara Municipal de Matosinhos – que pode, embora apenas em jeito de hipótese académica, ser a chave para este baptismo divinal.
O facto não se reporta a qualquer actividade bélica, mas apenas ao universo religioso da época. Diz respeito à imagem quatrocentista de Nossa Senhora da Conceição (padroeira de Portugal), imagem principal da actual igreja paroquial de Leça da Palmeira, para onde foi transportada depois de ter residido inicialmente no extinto Convento da Conceição de Matosinhos. Oferta
de D. Afonso V ao convento, a imagem é obra de Diogo Pires, “O Velho”, e desceu o Mondego de barco e na sua foz foi embarcada rumo à foz do Leça a bordo da nau...Nossa Senhora das Neves. Onde foi recebida “com muita variedade de bandeiras e flâmulas” e “com roqueiras e música”.
Coincidência ou não, entre Maio de 1483, quando a imagem foi entronizada, e o início da construção do forte de Leça da Palmeira – 1651 – correram quase dois séculos. Não podendo ser o Forte da Conceição, porque não escolher a santa que lhe serviu de transporte? Fica a curiosidade. Apenas e só.
Quanto à Nossa Senhora das Neves que deu nome ao forte a quem chamam castelo, é apenas mais uma nossa senhora do universo mariano, reportando-se a um milagre anunciado pela Virgem Maria em pleno Verão. Que terá garantido que nevaria em Roma em plena estação estival, o que aconteceu, no local onde hoje se ergue a basília de Santa Maria Maior, na capital italiana, um fenómeno de arrefecimento global capaz de estragar qualquer teoria elaborada por Al Gore.

3. Ladrões e piratas

A costa atlântica portuguesa não conheceu a pressão que a costa espanhola levantina viveu neste período e que aí levou a que fosse construída uma rede de torres defensivas e fortins que nem por isso revelou resultados dissuasores, como está bem documentado no trabalho de José Luíz Menendez Cuey, “La red de torres para la defensa del litoral costero em la provincia de Alicante”.
No caso concreto da costa de Matosinhos, “em questão de tranquilidade nunca foi feliz” devido “aos ataques de corsários que se prolongaram pelo século XVIII”, conforme regista Maria do Carmo Serén, no volume 5 da Monografia do Concelho de Matosinhos. A mesma autora defende que, então, a defesa do litoral português estava confiada a um corpo de 20 mil homens a pé e 4000 a cavalo, divididos por dez companhias. Sendo a guarnição dos fortes constituída por ordenanças “sorteados” para “os fortes do Castelo do Queijo, de Nossa Senhora das Neves e do inacabado fortim de Leixões”. Sobre este, hipoteticamente colocado na margem Sul da foz do rio Leça, e também referido por Guilherme Felgueiras na sua monografia, não existem provas físicas e as documentais são pouco convincentes. Tal como não resulta dos registos que a costa matosinhense tenha sido fustigada violentamente por ataques de corsários neste período.
A verdade é que existia também uma rede de vigilância. Diversos “fachos” acompanhavam a linha costeira. Estas casas de perpeando, com postigo voltado para o mar e uma caldeira elevada para avisos através de fumos, foram registadas no Corpo Santo (o ponto mais alto de S. Miguel de Leça da Palmeira), na Senhora da Boa Nova, no Senhor da Areia (Matosinhos), no Carrapato (Cabo do Mundo), na Agudela (Lavra) e no Forcado (Angeiras). Até Azurara registam-se mais três postos de vigilância. Cada um desses postos estavam ocupados em regra por um tenente, um facheiro e dois cabos.
Também no sul de Portugal há registos precisos sobre esta rede de vigilância costeira, de que é exemplo o sistema encontrado à volta de Faro. O acesso marítimo à antiga Osssónoba faz-se através da ria Formosa, estando a “barra” pontuada por diversas torres “que pretendiam manter um sistema de vigilância funcional”, à imagem e semelhança “de todas as atalaias medievais portuguesas e espanholas que se vão encontrando até ao século XVI”, como refere Teresa Júdice Gamito, num artigo publicado em “Mil Anos de Fortificações na Península Ibérica e no Magreb”.
O assédio dos piratas e corsários pode não ter conhecido a violência vivida noutras regiões costeiras peninsulares mas a presença de tantos pontos de vigia e de fortes e fortins do Douro até ao Minho revela que a ameaça de”bandidos” ingleses, holandeses, franceses, espanhóis ou turcos estava longe de ser apenas isso mesmo.
A conjuntura internacional ajuda a explicar este ambiente de grande instabilidade na orla marítima. A partir do século XVI, a disputa dos mares deixou de ser um monopólio partilhado tacitamente por Portugal e Espanha e os outros países europeus rapidamente mostraram que os tempos tinham mudado. Em Portugal continental apenas existiam, em meados do século XVI, três estruturas abaluartadas – em Lagos, Lisboa e Cascais – num momento em que as fortalezas portuguesas do Norte de África já se apresentavam adaptadas a um novo estilo defensivo e ofensivo, como eram os casos de Ceuta, Alcácer Seguer, Tânger e Arzila. Em 1567, Simão de Ruão partiu para o Norte, sob o impulso de D. Sebastião, para planificar a fortificação do Entre Douro e Minho. As grandes obras empreendidas no forte de S. João da Foz estavam concluídas em 1578. O forte de Nossa Senhora das Neves não tem a grandeza do seu vizinho da Foz mas é o precursor de uma série de fortificações de menores dimensões nem por isso desprezíveis, funcionando como apoio ao forte construído na barra do Douro, o grande porto da zona Norte portuguesa naquela época.
Sérgio Ferreira, in “O corso na segunda metade do século XVIII: reflexos de um cartório notarial portuense”, considera que são escassos os estudos sobre o corso em Portugal no período analisado mas faz o levantamento de 90 episódios de corso. Actividade que distingue da pirataria por ser uma actividade aventureira como a pirataria, todavia tutelada por um país e um soberano e “com normais de actuação muito restritas”. Existindo mesmo mercadores que se assumiam eles próprios como “semi-corsários”.
Da marinha de guerra portuguesa não se podia esperar muito pois debatia-se com “más condições logísticas” e os corsários navegavam com terra à vista, pouco se incomodando com a artilharia dos fortins da costa, que não os alcançava e apenas protegia os ancoradouros. Os corsários, ainda segundo Sérgio Ferreira, “quase faziam fila”, a 3/5 léguas da costa, “para partilhar os despojos das embarcações nacionais”, podendo abrigar-se rapidamente em Vigo, Pontevedra ou Ferrol. Usando como meio preferido de abordagem a abertura de fogo de intimidação.
Porque de piratas já aqui se falou, importa também referir outro tipo de ladrões para completar o quadro – os ladrões de terra firme. No caso específico de Matosinhos, a situação está bem retratada no antigo nome da praia onde desembarcaram as tropas de D. Pedro IV, já na primeira metade do século XIX.
Os liberais que desembarcaram perto do Porto ficaram conhecidos por “Bravos do Mindelo” mas a verdade é que a armada comandada por D. Pedro acabou por escolher como local de desembarque a “praia dos Ladrões”, hoje Praia da Memória, em Arnosa de Pampelido (entre as freguesias de Lavra e Perafita). E praia dos ladrões porque era o lugar “onde a população tinha ganho fama pilhando navios em perigo no mar” (Maria do Carmo Serén). População que, pelo visto, ignorou durante muito tempo a lei de Afonso II, promulgada nas Cortes de Coimbra de 1211, que acabou com o chamado “direito de naufrágio”, que permitia que os residentes se apropriassem de carga e tripulação estrangeiras ali naufragados. O que ajuda a perceber que a orla marítima foi sempre uma espécie de “zona de guerra”, onde obviamente imperava a lei marcial: valia tudo, não apenas no movimento mar-terra mas também nas acções terra-mar.

4. Conflitos sem consequências

O Forte de Nossa Senhora das Neves inaugura uma rede peculiar de pequenos fortes marítimos que, segundo Mário Barroca, “alcançaram um grande sucesso no quadro de uma nova estratégia defensiva”. No entanto, tem um histórico conhecido de folha quase limpa em relação à actividade para a qual foi concebido, a partir de 1651, em plena restauração, quando às ameaças de piratas e corsários se juntava o perigo espanhol. Quatro anos depois estava praticamente concluído.
Leça da Palmeira passou a ter, então, “um castelo chamado Nossa Senhora das Neves”, assim também descrito por Manuel da Cruz Ribeiro no “Dicionário Geográfico de Portugal” de 1758: “É quadrado, com um fosso, excepto para o mar, a que está junto”. Ali serviam nessa altura um tenente, um condestável, um sargento, um cabo de esquadra e oito artilheiros que dispunham de sete peças de artilharia, duas de bronze e as restantes de ferro.
A planta do forte foi desenhada por João Turriano e inclui dois meios-baluartes unidos por uma cortina rasgada ao centro pela porta de entrada, um fosso seco na zona voltada a terra, uma ponte levadiça, duas canhoeiras rasgadas no flanco dos meios-baluartes (o que permitia uma solução de fogo cruzado), três redentes na face voltada ao mar e guaritas nos quatro ângulos, concentrando quase toda a sua capacidade de tiro na face ocidental, onde existe um parapeito baixo que favorecia a orientação rápida e fácil das peças de artilharia (baterias a barbete), a que se acrescenta, num plano inferior, por uma plataforma mais baixa, de desenho trapezoidal, que alargava o campo de tiro. Como refere Mário Barroca, a grande originalidade do Forte de Nossa Senhora das Neves está, porém, na sua face menos activa, precisamente nos dois meios-baluartes que enquadram a porta de entrada, permitindo uma solução de fogo de protecção à zona da porta. Outros fortes iriam adoptar esta solução.
Numa visita o local, deu para verificar que a muralha norte é formado por uma camada de 19 silhares enquanto a sul apresenta a sobreposição de 18. A muralha onde se enquadra a entrada exibe também um desequilíbrio, com uma camada de 18 silhares numa das paredes e 19 na outra. A muralha ocidental – com 10 silhares no muro exterior e oito entre a zona da esplanada e o topo da muralha – apresenta também vária pedra solta na zona central do muro exterior, com a pedra apresentar-se escura, sugerindo que ali acorreu um incêndio. Nesta frente encontra-se ainda uma placa de mármore na qual se lê: “Para memória das gerações futuras ficam gravados nesta pedra os feitos gloriosos de Gago Coutinho e Sacadura Cabral, dois portugueses que conquistaram para a humanidade novos caminhos do mar, unindo Portugal e Brasil num voo de perfeita ciência e coragem”, com data de 17 de Novembro de 1922. Ou seja, alguns meses após a grande proeza, sugerindo que os dois aviadores terão passado por Leça da Palmeira e provavelmente junto ao castelo foram homenageados, o que não conseguimos confirmar.
O fosso do castelo, que o rodeia em três faces (excepto a ocidente, onde o mar “morria” inicialmente na muralha), termina num muro alto a Sul e está fechado a Norte por uma grade de ferro. Particularidade deste forte é a existência de duas guaritas quase encavalitadas, na união das faces ocidentais e Sul, que reforçavam também a protecção junto ao muro que cobria o fosso e aumentava o poder de fogo dessas faces da fortaleza leceira. As quatro guaritas fixadas nos quatro vértices são todas hexagonais com algumas aberturas nos ângulos mas a guarita "excêntrica" é de planta quadrada.
Parece insofismável que o Forte de Nossa Senhora das Neves nunca se conseguiu assumir como uma fortificação de grande valor estratégico e são várias as referências ao longo do século XVIII e XIX em relação à necessidade de cuidar das suas peças de artilharia e do próprio estado deste forte “situado talvez no único ponto desta costa que oferece algum abrigo às embarcações acossados pela travessia” e “única paragem onde as equipagens podem ter esperanças de salvação quando seja inevitável encalhar”, conforme relatou Marco Franzini, em 1982, citado por Joel Cleto em “Porto de Leixões” (1998).
Na foz do rio Leça, um rio pequeno e de fraco caudal, sobressaía uma extensa penedia dominada pelas rochas a que o povo deu o nome de “Leixãos”, origem quase natural do porto artificial que aí iria nascer no final do século XIX e que acabaria de vez com qualquer veleidade de protagonismo do Forte de Nossa Senhora das Neves, que até o mar deixou de ter junto das suas muralhas, ficando “enclausurado” pelo molhe norte do futuro porto.
No “espólio” guerreiro deste forte, já se disse, não se registam grandes proezas. A maior delas talvez seja mesmo o facto de, durante a II Guerra Mundial, ali ter funcionado uma estação de telecomunicações, paredes-meias com a capitania que ali iniciou a sua actividade o dia 18 de Dezembro de 1895, onde ainda funciona, sob a égide da marinha portuguesa e com o pomposo rótulo de “estrutura militar”. O que pode ser verificado numa qualquer tentativa de um estudante que ali queira colher mais alguns elementos sobre a história do forte, rapidamente dando para se suspeitar que ali estará guardada, tantas as dificuldades colocadas ao acesso, o segredo da bomba atómica... Recorde-se que o forte se assumiu em definitivo como uma estrutura passiva quando no seu interior se instalou, em 1892, a Delegação Marítima de Leixões.
O forte encontra-se em bom estado de conservação e para além da capitania também nele está instalado a Polícia Marítima.
O papel desempenhado pelo Forte de Nossa Senhora das Neves durante a disputa fraticida entre D. Pedro e D. Miguel ilustra bem a “modorra” que caracterizou o seu tempo útil como forte (mas pouco). Carlos Pereira Calixto, no Boletim da Biblioteca Pública de Matosinhos de 1964, regista que em 1832 ali foram feitas benfeitorias, “aquando da guerra civil”, mas em 1840 “só as muralhas estavam em bom estado” e o forte estava ocupado “por uma guarnição de veteranos”.
O desembarque das tropas liberais não deu também oportunidade para o forte mostrar a sua capacidade bélica. As tropas do general Santa Maria retiraram rapidamente de Leça da Palmeira e os “invasores” apenas sentiram “alguns tiros na direcção de Leça”, tendo o coronel Schwalbach avançado sem problemas sobre esta localidade.
Iniciado o desembarque às 14.30 horas – D. Pedro só pisou terra firme às 18 horas –, às duas horas do dia seguinte já não havia qualquer resistência em Leça da Palmeira. E mesmo durante o cerco do Porto o Forte de Nossa Senhora das Neves não desempenhou qualquer papel relevante, embora tudo indique que D. Miguel tenha estado em Leça da Palmeira.
Há, naturalmente, aqui um hiato de um século para o qual não encontrei qualquer fonte documental que consiga transportar para o Forte de Nossa Senhora das Neves um episódio que nos possa fazê-lo imaginar a disparar os seus canhões e rebatendo qualquer tentativa de abordagem de corsários.
Mesmo durante as invasões franceses, apenas encontrámos uma referência ao forte relativa a 7 de Junho de 1808. Conforme refere Carlos Pereira Calixto, no Boletim da Biblioteca de Matosinhos de 1987, “o castelo de Matosinhos correspondeu à salva de saudação real lançada pelo castelo de S. João da Foz” que assinalou o fim da primeira invasão francesa.
O mesmo Carlos Pereira Calixto, na “Defesa Nacional” (n.º 117), citando Jorge Bento, refere: “A história destas fortificações marítimas não tem grandes feitos militares a assinalar; foram testemunhas mudas das invasões francesas". O mesmo autor salienta que a importância deste forte foi diminuindo com o desenvolvimento da arte da guerra “a ponto de, no ano de 1844, ser ordenado, pela rainha D. Maria II, em virtude da sua inutilidade militar, a entrega da fortificação ao Ministério da Fazendo, para nela ser instalada a Alfândega do Porto”. O que nunca aconteceu.
Para memória futura fica também a descrição de Calixto sobre o estado do forte em meados do século XIX: “Pelo lado do mar tem duas baterias, uma no pleno dos baluartes, a Alta, e a segunda, a Baixa, a meio da muralha. Ambas as baterias jogam à barla e são lajeadas, assim como todo o recinto magistral. A bateria Alta é composta por quatro lanços, formando, a meio, um redente. A bateria Baixa é formada por três lados – sendo o do meio paralelo à cortina da porta principal. Os seus parapeitos são de pedra e de três palmos de altura e largura.”

5. Uma velhice colorida

A originalidade do Forte de Nossa Senhora das Neves tem a ver também com o facto de ter sido precedido por um outro forte construído “a um tiro de mosquete”, um pouco mais a Sul, também na margem direita da foz do rio Leça.
O padre António Manuel Carvalho dá-nos conta, em 1706, da existência de dois fortes naquele local. Um primeiro que diz ser moderno e quadrado, “com plataforma para o rio e para o mar” e que “não estava acabado”. O segundo, que classifica de “mais antigo” (não é o caso) e “mais puxado para norte”, apresentava quatro peças de artilharia e a respectiva guarnição. Para além desta referência da “Corografia Portuguesa”, também as “Memórias Paroquiais” de 1758 confirmam a existência de duas estruturas fortificadas, construídas num hiato temporal de 13 anos. Sendo a primeira, rapidamente abandonada, a inaugurar, segundo Barroca, “o modelo das pequenas fortificações marítimas típicas da estratégia seiscentista de defesa da costa”. A segunda fortificação foi também pioneira para o norte do país, exibindo uma planta que foi modelo para outras estruturas do género.
Sobre o primeiro forte há notícias de que se encontrava demasiado afastado do plano de água – ao contrário do segundo, cujas muralhas ocidentais eram batidas pelo mar – e que essa foi uma das razões que levou a que se construísse um segundo forte. Tendo-se chegado mesmo a sugerir uma outra localização para este forte, assente nos penedos que tornavam a barra do rio Leça singular na sua qualidade de porto de abrigo natural. Sobre esses penedos encontra-se numa fase posterior um “facho” de sinalização que ainda hoje se pode apreciar na praia de Leça da Palmeira, para onde foi transplantado durante as obras de construção do Porto de Leixões. De sinalização luminosa ainda falando, importa salientar que, no início do século XX, foi construída sobre o redente central do forte uma torre hexagonal que serviu de posto semafórico, ajudando a controlar o movimento portuário. A torre não terá tido muita serventia pois desde o início do século XX que uma nova torre, ainda hoje existinte e construída fora das muralhas do forte, foi construída – a Torre do Marégrafo. A torre “a cavalo” do forte, no redente central, seria demolida no início dos anos 60 do século passado, quando também se fizeram importantes obras na zona envolvente do forte.
Na primeira metade do século XX, Leça da Palmeira era, segundo Jorge Bento (em “Leça Sempre”, 1998), “uma aldeola afidalgada, de ruas tortuosas, estreitas e mal macadamizadas” na qual o seu “castelo” se apresentava coberto de heras trepadoras na fachada e “florido de roseiras”, mais concretamente num “grande largo onde estadeava um vetusto castelo semi-tapado de perrexil e com um roseiral no fosso”. Surgindo, no lado sul da fortaleza, uma escada monumental em caracol em alegre convívio com a estrutura militar e permitindo o acesso entre os dois planos do jardim com vista para a bacia de Leixões. No final dessas escadas existia também um curioso mictório em estilo turco, camuflado por renques de ligustres, que após as obras seria transferido para o Largo Castelo, onde permaneceu até aos finais da década de 70 do século passado, exibindo um peculiar acesso em curva fechada.
A vida útil da fortaleza já tinha sido consumida quando a mesma para além de dar guarida aos serviços administrativos da capitania não era mais que um emblema colorido de S. Miguel de Leça da Palmeira. Muito graças também à acção do último dos seus governadores, António Pinto Leão da Silva, ele próprio cuidador da heras que cobriam a fachada oriental do forte da base das muralhas ao topo das guaritas, no final do século XIX.
Porque é uma questão que pode ajudar a resolver o “enigma” da localização do primeiro forte de Leça, Augusto Nobre, in “Leça da Palmeira: recordações de há 60 anos” (1945), dá-nos do Hotel Estefânia (que em imagens antigas exibia parte da muralha desse primeiro forte) uma localização precisa: “Está situada esta casa na rua Guilherme Gomes Fernandes, antiga rua da Panca”.
O hotel tinha, ainda segundo o irmão do poeta António Nobre, “uma sala de jantar espaçosa” e era frequentado “pela colónia inglesa e por banhistas portugueses”, estando integrado num parque arborizado. Era propriedade de Wenceslau de Lima, que ali viveu, e também passou pelas mãos de Joaquim Pacheco. Era seu gerente Romão Vilaverde, que depois, quando o “Estefânia” entrou em decadência, foi dirigir outro hotel “junto à barra do Leça”, também conhecido, segundo Augusto Nobre, por “Red-House”, “por ser pintado de vermelho”. Augusto Nobre não é claro na sua exposição pois fala também de outro hotel, o Central, situado no largo Ribeiro Seco (hoje Fonte Sêca), onde "os filhos do Romão vieram instalar-se, dando-lhe o nome do Hotel Estefânia".
Fica, assim, a dúvida: houve dois hotéis Estefânia, separados por escassos 200 metros, e qual deles aproveitou parte da muralha do primeiro castelo de Leça? O Largo da Fonte Seca confina hoje directamente com a avenida que bordeja o porto de Leixões por Norte enquanto a rua Guilherme Gomes Fernandes – um bravo bombeiro do século XIX – continua a ser desenhada um pouco mais para o interior do núcleo histórico de Leça da Palmeira.
Jorge Bento, prolixo autor leceiro, precisa que o fortim a que chama de S. Catarina estaria situado precisamente no local "do segundo Hotel Estefânia", ou seja, no actual Largo da Fonte Seca. Este autor refere mesmo que existiram em Leça da Palmeira, todos muitos próximos uns dos outros, três hóteis Estefânia! Perto deste “lugar onde” existe ainda a capela de S. Catarina, restaurada pela última vez nos anos 80 do século passado.
Sobre o último governador do castelo de que aqui já se falou, dá-nos também Augusto Nobre alguns pormenores deliciosos, confirmando-o como “um grande amador de flores, que cultivava no fosso do castelo”.
“Era neste castelo que nós bincávamos com os filhos do governador e com outros rapazes. O governador tinha dois filhos, o Cândido, o mais velho, era um exímio guitarrista, deliciando-nos com serenatas. Morreu há pouco anos, tendo atingido um posto militar elevado no exército; o outro era o Carlos, mais novo, mas não sei o destino que teve. Tinha também duas ou três filhas, uma delas casou com Aníbal Martins, do Porto, com fábrica de coroas artificiais na travessa do Correio, tendo sido um dedicado vulto do partido republicano e muito meu amigo.”
Ou seja, o poeta António Nobre não apenas cantou o “castelo de Leça” mas também brincou no seu interior e ali ouviu algumas serenatas à viola.
Fortalezas de Lippe! Ò fosso do Castelllo
Amortalhado de perrexil e trepadeiras!
Onde se enroscam como esposos os lagartos!
Senhor Governados a podar as rozeiras!
António Nobre

6. Conclusão

As imagens do Forte de Nossa Senhora das Neves, vulgo Castelo de Leça, suscitam a memória do tempo da refundação de Portugal, no século XVII, e mostram-nos uma estrutura militar defensiva bem desenhada e modelar. O seu valor estratégico parece ter sido indubitável durante os seus primeiros anos de vida, embora a sua actividade bélica tenha sido reduzida. A sua artilharia não terá disparado tanto como se pode imaginar – e o estado das peças foi, ao longo dos tempos, considerado decrépito – mas a sua funcionalidade é algo de bastante impressivo. O forte valeu sobretudo como acto arquitectónico de uma fase apenas explosiva, no que concerne a esta estutrura, na influência gerada e na substância artística deste pequeno mas sugestivo “Castelo” de Leça da Palmeira.


PS - Porque sei que alguns dos nossos clientes gostam destas coisas e acreditam que o futuro se senta sobre o passado, cá deixo um trabalho que fiz este ano para a disciplina de "Arqueologia Moderna", sob a direcção de Mário Barroca, que foi bastante generoso na forma como o avaliou.

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