terça-feira, 28 de outubro de 2008

O MEU DIA

A rotunda da ponte móvel finalmente ganha forma no lado de Leça e o mesmo acontece na outra banda, na cidade.
O mar hoje estava com uma cor metálica e os polvos deviam estar bem recolhidos nos seus covos. Os surfistas apenas se arriscavam no outro lado do paredão, depois do Titã.
Um frio madrugador sibilava sob um céu azul de anti-ciclone.
Aguarda-se por um último fogacho de calor, no tal Verão de S. Martinho, mas já saem castanhas quentes na rotunda da Anémona. Perto dali vi Narciso. Estava ao telefone e ao mesmo tempo à conversa. O homem não pára. Será que tem tempo para reparar no tempo?
Somos empurrados pela velocidade da vida sem percebermos que vamos na direcção abismal. Qualquer segundo em que ousamos resistir à força do movimento...é um segundo a mais que ganhamos. Um segundo pode ser muito importante. Nas corridas de 100 metros é uma eternidade.
A Brito Capelo estava oca mas os poucos que lá passavam iam com pressa. De malinha ao tiracolo, percebi um amigo antigo. O mesmo estilo, mais alguns quilos, cabelos brancos. Não sei como se chama, só sei que faz parte das minhas memórias...
Parei no "Aliança", o mais antigo dos restaurantes de Matosinhos, e desta vez não comi a famosa alheira. A "jardineira" estava um regalo e ousei, apesar da acidez do aparelho digestivo que tem perturbado os meus dias e até algumas noites. A máquina já não é o que era.
Segui para um encontro que se desencontrou e regressei em passo lento. Entrei numa loja ao acaso. Utilidades, anunciava. Como nada de útil achei, entre esfregões e detergentes, voltei à luz diurna, paguei o estacionamento no parque das marisqueiras e dei duas voltas à Serpa Pinto. Por extraordinário que pareça, a "coisa" funciona e saúdo o facto de terem perpetuado os mecos, agora agarrados ao asfalto.
Segui com o mar à direita e mergulhei em mais um dia de trabalho. Pouco trabalho, confesso. E muito sono. Cumprida a pífia missão, voltei à base. E aqui estou com duas torradas e um chá de cidreira e, confesso, um pouco de doce de tomate, em homenagem ao meu amigo Punk, que tanto gosta deste momento do dia.
Dois toros ardem já na lareira e só lamento não a poder levar para o quarto para viajar com Newton na Londres do século XVII. Quando nada mais acontece, o que até nem foi o caso, um bom romance é sempre um bom pretexto para justificar o esforço de viver no ocaso de mais um dia de que amanhã já não teremos memória.
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